Kuba Mali 2: são bons fones, como se esperava? Review
A Kuba disponibilizou recentemente no Brasil os Mali 2, fones true wireless que chegaram fazendo algum barulho entre entusiastas. O preço oficial gira em torno de R$ 380, e desde o anúncio eles carregam expectativa grande, especialmente por alguns vídeos de prévia publicados no YouTube e muito assistidos.
Estamos falando de uma marca bem estabelecida nesse nicho. É nacional, tem boa reputação e costuma trabalhar com produtos que não ficam nem no extremo do barato descartável, nem no topo absurdo de preço. Um dos nomes por trás da marca é Leonardo Drummond, do canal Mind the Headphone, alguém que claramente entende do assunto e tem influência real sobre quem acompanha esse universo — inclusive eu. Costumo prestar atenção no que ele diz.
Meses atrás, Leo apresentou os Mali 2 como um modelo acessível, mas com qualidade sonora de referência. Ele mesmo tunou os fones para ficarem alinhados à chamada curva JM-1, uma proposta super moderna de sonoridade pensada para soar mais natural, baseada na forma como o ouvido humano percebe o som. Falando por cima, a ideia é evitar exageros e buscar equilíbrio. E ele se mostrou genuinamente feliz com o resultado, repetindo isso mais de uma vez.
Com o tempo, quem acompanha avaliações de áudio acaba aprendendo a “traduzir” certos discursos para o próprio gosto pessoal. No meu caso, por exemplo, quando Leo diz que um fone está “no ponto”, geralmente eu interpreto como “talvez falte um pouquinho de grave” — não por defeito, mas por preferência mesmo. Muitos audiófilos não são fãs de graves se destacando. Então a curiosidade com os Mali 2 era justamente essa: será que, pra mim, eles iam funcionar?

Comprei os fones com meu próprio dinheiro, ainda na pré-venda. Inclusive, a unidade veio marcada como parte das mil primeiras vendidas. Usei no dia a dia e a ideia aqui não é fazer uma análise técnica formal, mas sim passar uma visão prática, honesta e informativa.

Começando pela construção: os Mali 2 são fones white label. Ou seja, o design não foi criado do zero no Brasil. A Kuba utiliza uma carcaça já existente, de origem chinesa, aplica sua marca e faz os desejados ajustes externos e internos, especialmente no perfil sonoro, dentro das limitações do hardware. Isso é extremamente comum no mercado de eletrônicos. Perde-se um pouco em originalidade visual, mas não chega a ser um demérito relevante.
O formato, inclusive, é agradável. O estojo tem acabamento fosco, que passa uma boa impressão, embora pareça marcar com certa facilidade — o meu já ganhou um risquinho na frente sem ter sido maltratado. A barra de LED frontal é simpática, assim como os LEDs nos próprios fones.
Cada cápsula é sensível ao toque e permite controlar reprodução, volume, ativar modo ambiente, modo gamer (para reduzir latência) e o cancelamento ativo de ruído. Os avisos sonoros são em português, com uma voz feminina falando “conectado” ao parear com o celular, por exemplo. Funciona bem, embora o volume desses avisos seja um pouco alto demais. O volume máximo dos fones em si é excelente, entregam som alto com folga.
O microfone tem um leve abafamento e, ocasionalmente, engole uma palavra ou outra, mas ainda assim é plenamente utilizável para chamadas comuns. Nada fora do esperado para a categoria.
No encaixe, tive uma experiência muito boa. Eles lembram um pouco a pegada de AirPods Pro 3, ficaram bem fixos nos meus canais auriculares e não causaram dor mesmo após cerca de duas horas de uso contínuo. Claro, ergonomia varia bastante de pessoa para pessoa.

A bateria ficou em torno de 5 horas e 50 minutos com o cancelamento de ruído ativado. Até agora carreguei o estojo três vezes e ainda parece haver uma folga de carga. Está dentro do padrão atual do mercado.
O Bluetooth é versão 6.0, teoricamente trazendo mais estabilidade. No uso geral, a conexão é estável, mas notei algo curioso: em vários momentos, logo após ligar os fones e começar a ouvir música, os primeiros 10 a 20 segundos apresentam pequenas falhas e instabilidade. Depois disso, a conexão engrena e segue firme. Não é grave, mas vale a menção.
E o mais importante: o som.
Do meu ponto de vista, não audiófilo, os Mali 2 entregam um áudio que não exagera para lado nenhum. Não existe aquele grave gigante que “fecha” tudo, mas também não são estridentes por exagero nos agudos. Em faixas de rock, por exemplo, dá para compreender bem os instrumentos, sem embolar a mixagem, e as vozes têm presença agradável.
O ponto-chave é que eu não os classificaria como fones com falta de grave. A batida está lá, é interessante, só não é exagerada. Quem tem mais bagagem nesse universo provavelmente vai gostar da abordagem. Já quem curte eletrônica ou hip-hop mais pesado talvez sinta vontade de aplicar uma equalização para reforçar as frequências baixas.
O cancelamento ativo de ruído fica um degrau acima dos modelos mais básicos. Com música tocando, ele isola bem, mas não espere milagres em ambientes extremamente barulhentos, como dentro de um avião.
Uma parte curiosa dos meus testes foi uma comparação que fiz dos Mali 2 com Galaxy Buds Core da Samsung, um modelo popular no Brasil. Embora o preço oficial seja acima dos R$ 300, eles frequentemente aparecem por menos de R$ 250, o que os coloca como concorrentes.
Fiz uma atividade simples com minha noiva, que não tinha usado nenhum dos dois modelos antes. Como foi:
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Músicas usadas:
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Silverchair – The Door
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Spiritbox – Circle With Me
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Led Zeppelin – Immigrant Song
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Ela ouviu uma música por vez.
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Primeiro um fone, depois o outro.
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Cerca de 50 segundos iniciais, repetindo os primeiros 20 segundos em seguida.
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Volume ajustado para níveis semelhantes.
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Galaxy Buds Core no perfil equilibrado, o padrão de fábrica.
Nas três rodadas, ela preferiu os primeiros fones que ouviu, que eram os Buds Core. Segundo ela, o som neles parecia mais próximo, mais intenso, mais “com cara de fone de ouvido”. Já os Mali 2 soavam mais abertos, como se a música viesse de caixas externas. Curiosamente, ela achou o cancelamento de ruído melhor nos Mali 2.
No fim, a preferência dela passou diretamente pela questão do grave mais pronunciado dos Buds Core. Eles fecham mais a cabeça, isolam mais, entregam aquela sensação que muita gente associa a um bom fone. E preferência é preferência. Não é à toa que tantos modelos da JBL, com graves até exagerados, fazem tanto sucesso.
Na minha percepção, os Mali 2 são tecnicamente melhores, no sentido de permitir ouvir mais nuances e detalhes das faixas. São mais cristalinos. Mas isso não significa que todo mundo vá preferi-los. Para muita gente, a experiência mais “impactante” pesa mais — ainda mais quando os Buds Core custam menos e contam com um aplicativo bem resolvido no Android, algo que a Kuba ainda não oferece.
Que fique claro: os Buds Core não são fones ruins, muito pelo contrário. São um produto competente para a categoria. O ponto aqui é entender perfis e gostos diferentes do público.

No fim das contas, os Kuba Mali 2 são fones com formato agradável, volume alto, bateria dentro do esperado e um perfil sonoro que foge do padrão mais comum entre os concorrentes de R$ 250 a R$ 400 no Brasil. Eles não apostam no batidão, mas sim em uma apresentação mais equilibrada, mais aberta, que valoriza nuances e respiração das faixas.
Eles buscam isso… E conseguem. O desafio é que boa parte do público, na comparação direta, pode acabar escolhendo justamente o oposto.
Ainda assim, é difícil não gostar da proposta. É interessante podermos ter acesso a esse tipo de produto dentro do país. Uma marca brasileira tentando fazer algo com qualidade e personalidade, mesmo em um mercado tão saturado, merece atenção.
